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Barnaba Fornasetti

Completando três décadas à frente de uma das mais inovadoras e reconhecidas marcas de design do mundo, o filho de Piero Fornasetti fala, em entrevista exclusiva, sobre o legado deixado pelo pai, a atemporalidade de suas criações e a importância da imaginação no processo criativo

 
Historicamente, a obra de Piero Fornasetti (1913-1988) marcou o design. O artista italiano, reconhecido por suas criações excêntricas e repletas de originalidade, eternizou seu nome ao registrar o rosto da soprano Lina Cavalieri em aproximadamente 400 peças no decorrer de sua carreira. Além da face, que descobriu ao acaso em uma revista do século 19, o artista, escultor, pintor, designer e decorador também se inspirou em outros desenhos para compor seus produtos.

Entre cerâmicas – os pratos são, definitivamente, os mais famosos – e uma infinidade de itens de mobiliário e decoração, o milanês registrou imagens misteriosas, verdadeiros enigmas que unem formas humanas e natureza de maneira quase abstrata. Itens clássicos do mobiliário ganharam roupagem criativa a partir da imaginação fervilhante de Piero, que sempre preservou a característica funcional de suas criações. Trinta anos após a morte Piero, seu filho, Barnaba Fornasetti, é quem leva esse legado à frente. Ele é o responsável por manter viva a tradição e a originalidade das criações que fizeram sucesso no passado e, de maneira brilhante, seguem atemporais.

Foto: Daniel Hertzell/Divulgação

Nascido em 1950, em Milão, Barnaba lembra que o interesse pelo universo criativo surgiu na infância e, ainda criança, já havia inspirado seu pai na criação de uma bandeja com simples flores colhidas no jardim. Em 1968, iniciou os estudos na Academia de Belas Artes de Brera e, no decorrer dos anos, longe de casa, somou diferentes experiências profissionais, sempre relacionadas ao universo criativo. Somente em 1982, de volta à cidade natal, começou a trabalhar, de fato, com o pai, que faleceu em 1988. Então, Barnaba assumiu os negócios da família e se tornou o coração criativo da marca.

Não é segredo: aos 68 anos de idade, ele segue os ensinamentos deixados pelo pai e preserva o seu espírito inovador, responsável por eternizar Fornasetti na história do design mundial. Hoje, Barnaba se dedica aos relançamentos de ícones e também a novas peças, as quais chama de “reinvenções”: são novos produtos, desenvolvidos do zero por ele a partir da essência deixada pelo pai.

Em uma entrevista exclusiva à Living, Barnaba Fornasetti fala sobre sua trajetória à frente da empresa, as inspirações e os ensinamentos obtidos com Piero e a responsabilidade de preservar e manter viva a história da maison italiana na atualidade.

Foto: Ugo Mulas e Giovanni Gastel/Divulgação

 

REVISTA LIVING: Como iniciou a parceria entre você e seu pai?

BARNABA FORNASETTI: Aos três anos de idade, colhi uma folha de hortênsia do jardim, coloquei uma margarida sobre ela e entreguei de presente para meu pai. Com elas, ele fez uma bandeja e colocou em produção. Essa foi a nossa primeira colaboração.
 
LIVING: Você sempre quis seguir o trabalho dele?

BARNABA: O trabalho do meu pai, certamente, me influenciou: eu nasci nesse ambiente e cresci cercado por estímulos visuais e intelectuais, que mais tarde entendi serem extremamente incomuns. Eu não me tornei parte ativa disso imediatamente, mas achei bastante simples levar adiante a visão criada por meu pai e revitalizá-la: considero isso algo natural. Eu não escolhi isso, mas senti esse legado complexo como uma grande responsabilidade, da qual eu não poderia me afastar.
 
LIVING: Quais eram as inspirações de Piero e o que você leva hoje para as suas criações?

BARNABA: A linguagem visual criada por meu pai teve inspiração em coisas diferentes, elas se originam do passado. Esses temas fazem parte de um conjunto de imagens encontradas no inconsciente, são imagens que sempre estiveram em nossas mentes e memórias. Ele se inspirou nelas e trouxe novos significados, criando um mundo onírico, cheio de imagens, cores e um viés irônico. Ao longo de sua produção, desenvolveu uma identidade visual, sempre fascinante. Meu pai não acreditava em gostos baseados em tendências ou datas. Ele se recusou a definir o valor de um objeto com base no período ao qual pertencia. Sua inspiração não teve esse tipo de limite: tudo ao seu redor poderia estimular a sua imaginação.

Adotei essa mesma abordagem e evito a moda e o consumo rápido, que atualmente dominam o mercado criativo. Prefiro criações atemporais, aquelas que não estão sujeitas a tendências passageiras. Tanto quanto possível, crio objetos desprovidos de qualquer influência externa, valorizando o bom gosto e focando na mensagem cultural que a decoração traz consigo.
 
LIVING: Qual você considera o grande ícone da marca Fornasetti?

BARNABA: A decoração que as pessoas associam à marca e, provavelmente, a mais conhecida é “Tema e Variazioni”, que retrata infinitas variações da face feminina de Lina Cavalieri. Esta mulher foi uma artista de renome internacional que viveu entre o final do século 19 e o início do século 20. Seu rosto com proporções perfeitas e sua expressão enigmática deram origem, ao longo dos anos, a mais de 400 peças, todas criadas por Fornasetti. Como meu pai explicou, o rosto de Lina é um verdadeiro arquétipo, a imagem da beleza clássica, como uma estátua grega, enigmática como a Mona Lisa.
 
LIVING: Como manter todo o legado deixado por ele e reinventá-lo pensando na atualidade?

BARNABA: Hoje testemunhamos a recuperação do valor cultural e econômico do trabalho manual e artesanal. Estamos começando a refletir novamente sobre a inteligência e capacidade de inovação daqueles que trabalham com as próprias mãos – muitas pessoas acreditam que o futuro precisa redescobrir “as pessoas que fazem as coisas”. Em contraste com a natureza invasiva da tecnologia, eu acho que é necessário redescobrir as virtudes e o trabalho do artesão. Meu sentimento é que, na Itália, precisamos seguir nessa direção, pois há inúmeros ofícios em perigo de extinção.

Artesanato, que é sem dúvida uma parte importante do legado do meu pai, é uma das poucas áreas em que o nosso país continua representando um destino único para talentosos e jovens designers, estilistas e artistas de todo o mundo. É uma das poucas cartas que podemos jogar para ajudar a revitalizar a economia e encontrar um posicionamento original no cenário internacional.
 
LIVING: Dentre as criações de seu pai, quais você mais admira?

BARNABA: Eu não tenho uma peça favorita, mas se tivesse que escolher uma, eu diria, sem dúvida, “Architettura”, que é universalmente reconhecida como a peça mais importante criada por ele e uma das que considero mais preciosa. Originalmente foi projetada por Gio Ponti e depois modificada e decorada por meu pai, tornando-se um ícone do mobiliário Fornasetti. Ela segue me inspirando, inclusive. No mais recente Salone del Mobile, expus esse objeto na Fornasetti Store, em Milão, refazendo sua história de 1951 até hoje.
 
LIVING: E as assinadas por você? Há alguma especial?

BARNABA: A criação mais recente é quase sempre a minha favorita: tenho tendência a perder o amor pelo trabalho feito no passado – com algumas raras exceções. Se eu realmente tivesse que escolher uma criação, eu optaria pela coleção “Cilindro” (lançada no Salone del Mobile, em 2017), que me deu muita satisfação.
 
LIVING: São três décadas à frente da Fornasetti, desde que seu pai faleceu, em 1988. O que podemos esperar para os próximos anos?

BARNABA: Esses 30 anos estabeleceram a união de uma equipe muito entusiasmada, com quem trabalho diariamente. É uma colaboração que abrange gerações e só posso esperar o seu enriquecimento e apoio em prol do futuro da marca.
 
LIVING: O que tem de Piero e o que tem de Barnaba, hoje, na Fornasetti?

BARNABA: Atualmente, tento dar ressonância ao que meu pai colocou em conjunto: uma visão, uma crença, um método e um excelente ensino que vai além dos limites do design. Eu levo tudo isso em direção ao futuro, com minha própria sensibilidade, com forte foco no social e no meu próprio modo de viver no mundo de hoje.
 
LIVING: Como ocorre o seu processo criativo?

BARNABA: A maior inspiração vem do arquivo do meu pai. Esse momento “eureka” geralmente acontece quando você menos espera, quando está fora do trabalho. Minhas melhores ideias geralmente chegam em momentos de relaxamento, por exemplo, quando estou na piscina. Minha musa “em carne e osso”, hoje, é Valeria (Manzi). Estamos em sintonia não só emocional, mas também profissional. Seu conhecimento e sensibilidade são uma constante fonte de inspiração para mim e um estímulo para pensar e melhorar as criações.

A instalação Handmade é uma colaboração entre Barnaba Fornasetti e Valeria Manzi (Foto: Nina Ansten/Divulgação)

 
LIVING: Você pensa em criação em larga escala ou prefere focar em produtos exclusivos?

BARNABA: Hoje, a indústria do design parece estar se aproximando cada vez mais da indústria da moda, obrigada a produzir novos produtos em um ritmo incessante. É um ambiente que está mudando, mas não me sinto sob pressão. Eu sinto que nossa marca não deve expandir rapidamente, pois acredito em “slow design” e prefiro que a Fornasetti cresça em qualidade e não em quantidade. Essa é a direção para a qual busco projetar nosso trabalho e isso, naturalmente, leva a uma posição de exclusividade no mercado.
 
LIVING: Como unir o lado excêntrico e visionário que caracterizou o trabalho de seu pai à ideia da funcionalidade, que é essencial no bom design?

BARNABA: Meu pai dizia que um objeto, uma peça de mobiliário, nunca deveria perder sua função prática. Pode ser decorada por todos os lados, até o excesso, mas não deve perder a sua utilidade: “Uma cadeira é feita para se sentar e, em primeiro lugar, deve ser confortável”. É uma lição que aprendi e levo sempre com grande convicção.
 
LIVING: Quais os principais ensinamentos que seu pai deixou?

BARNABA: A principal lição que aprendi é sobre a importância da imaginação. Ele me ensinou a não ser influenciado por tendências efêmeras, a resistir e combater o conformismo e a mediocridade. Ele não acreditava em períodos ou datas e disse: “Recuso-me a definir o valor de um objeto a partir de sua data de origem. Não quero me limitar e quero libertar minha inspiração dos limites do comum”.
 
LIVING: Ironia e humor são marcantes na obra de Piero. O que você acha que ele desejava expressar com essas criações?

BARNABA: Meu pai conseguiu projetar objetos funcionais com linhas simples e, ao mesmo tempo, carregá-los – através da decoração – com valores que eram culturais, irônicos, narrativos. Ele conseguiu aplicar arte nesses objetos domésticos do cotidiano, pensando em iluminar diariamente vida. Ele disse que, assim, estava tentando transmitir “joie de vivre” (expressão francesa que pode ser traduzida como alegria de viver). Em um mundo cada vez mais cinzento e conformista, pergunto: o que poderia ser mais atual? Nos raros momentos em que nossos olhos se perdem em algo, eles precisam de imagens inspiradoras para desfrutar, como olhar para uma paisagem, um jardim, uma obra de arte, algo que satisfaça nosso gosto estético.

Foto: Arianna Sanesi/Divulgação

“Nos raros momentos em que nossos olhos se perdem em algo, eles precisam de imagens inspiradoras para desfrutar” (Barnaba Fornasetti)

 
LIVING: E hoje, você segue nessa mesma linha? O que você deseja transmitir com as suas criações?

BARNABA: Sempre fui muito cuidadoso em respeitar o estilo e a imagem da maison criada por meu pai, introduzindo inovações técnicas e estilísticas de maneira muito discreta. O que eu gostaria de transmitir? Primeiro de tudo, gostaria que a nossa marca entrasse em contato com um público cada vez maior. É por isso que, recentemente, sob minha direção artística, a Fornasetti está tentando ser menos ligada a produtos comerciais para encontrar novos canais onde a decoração possa ser usada. Meu objetivo é tornar esse imaginário da Fornasetti disponível sem ser necessário comprar um objeto: a decoração, que eu não considero uma arte menor, tem o potencial de estar ligada a muitos tipos de mídia, em variados campos. A ópera “Don Giovanni”, bem como o livro de arte “Tema e Variazioni”, que apresentamos em 2016, mostrou como o estilo Fornasetti pode explorar criativamente diferentes esferas artísticas e culturais, em uma contínua fertilização cruzada, passando da decoração ao teatro e música e, por fim, de volta ao design.
 

Matéria publicada na edição 87 – outubro 2018 da Revista Living. Para adquirir seu exemplar, clique aqui.

 

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